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Esforço

Não há nada a ser preservado. É tudo fluxo, assim nos ensina a vida. Existir é não ser e como diria Pessoa: "pensar é não saber existir". O esforço em preservar o que nunca foi é sintoma desse não saber existir. Todos nós existimos. Mas só sabemos de fato existir nos momentos em que não fazemos esforço para preservar aquilo que não se preserva. Talvez isso seja saber existir: não fazer esforço para preservar aquilo que não se preserva. Uma gota de chuva é uma gota de chuva entre o momento que se desprende da nuvem e o momento que toca o chão. Depois já não é mais gota de chuva. Se transforma em outra coisa: poça de lama, água no asfalto, parte de um rio, oceano. A subordinação inequívoca às leis da natureza confere à gota de chuva seu próprio e inquestionável caráter existencial. Para uma gota de chuva não existe o paradoxo do não saber existir. Nós, humanos, costumamos ser diferentes. Existimos e só conhecemos a condição do existir. Primeiro existimos, depois somos. O exist...

Significado

No que consiste o significado das coisas? Seria o significado de algo um arranjo para uma junção estruturada de palavras que desperta em nós, seres de linguagem, o sentimento de clareza e familiaridade com os conceitos subjacentes à coisa em si? A ponte que usamos através da linguagem entre o nosso mundo, perecível, em decomposição constante, com o mundo seguro das ideias eternas de Platão? Às vezes sinto que toda busca humana não passa de uma grande busca por significados. No início nos contentamos com o significado das pequenas coisas: a compreensão da dinâmica das estações, o movimento das gotas de chuva impulsionado pela enigmática atração gravitacional inerente à matéria, a compreensão das pequenas regras dos homens, o entendimento da nossa história, o funcionamento político-social do Sapiens. Mas depois de navegar em meio às palavras que definem esses significados superficiais, sentimos a necessidade de um significado mais profundo. Queremos desbravar o significado além da defin...

Abstinência

Já nem sei quanto tempo faz. No começo ainda contava os dias. Talvez como uma forma de contar pontos. Mas pontos para que? Qual a finalidade disso tudo? Um tempo atrás o tempo estava claro. Ao menos os motivos do tempo me pareciam de uma resolução cristalina. Hoje já não sei mais o porquê dessa pausa. Sim, uma pausa, porque nada no plano da vida é eterno. Às vezes uso isso para me consolar. A ideia de ficar para sempre sem você é dura demais para mim. É tudo transitório. Pelo menos é o que a sabedoria fala. Mas isso não alivia o sentir. Hoje me pergunto qual a finalidade dessa sabedoria. Quando eu me sentia sábio não perguntava. Mas agora, tomado por uma confusão sufocante, sou invadido por uma quantidade de perguntas muito maior do que minha capacidade de respostas. São tantas vozes que dificilmente me escuto. Na maior parte do tempo é só um ruído constante. Acordo, tomo café, acendo um incenso, tento agradar os sentidos. Talvez seja só isso o que podemos fazer. Me estico, alongo, fa...

Repúdio à esperança (ou uma ode à Vida)

O que é esperança? Seria a retórica interna que visa justificar o descontentamento com o momento presente com base na fuga para o campo das projeções de um futuro idealizado? Uma não aceitação da vida tal como ela é e que clama pela necessidade do sonho? O desejo da mente de estar num tempo diferente do tempo do corpo? O prêmio de consolação para aqueles que pelas amarguras do caminho não tiveram condições de gostar da vida por inteiro, mas apenas dos pedaços agradáveis da vida? Não sei bem o que é a esperança e nem julgo aqueles que veem na esperança a salvação do momento presente. Só sei que esse conceito me cansa e por isso repudio toda forma de esperança. E nesse meu  repúdio opto por acolher com carinho a melancolia contemplativa de um corpo já cansado pelas ilusões provocadas em nome dessa tal "esperança". Me lembro dos meus primeiros contatos com esse sentimento. Já na infância regava pacientemente a semente da esperança. Esperava um dia ser um grande homem, conhecer ...

O conhecimento daquele que sofre (trecho extraído do livro "Aurora" do Nietzsche)

A condição das pessoas doentes, durante muito tempo e horrivelmente torturadas pelo sofrimento, mas cuja inteligência, apesar disso, não se perturba, não deixa de ter valor para o conhecimento, sem falar até dos benefícios intelectuais que trazem consigo toda solidão profunda, toda libertação súbita e lícita dos deveres e dos hábitos. Aquele que sofre profundamente, encerrado de alguma forma em seu sofrimento, lança um olhar gélido para fora, sobre as coisas: todos esses pequenos encantamentos enganadores em que habitualmente se movem as coisas, quando são olhadas por alguém saudável, desaparecem para ele: ele próprio permanece envolto em si, sem encanto e sem cor. Supondo que viveu até aqui em qualquer perigoso devaneio, o supremo chamamento à realidade da dor constitui o meio de arrancá-lo desse devaneio: e talvez seja o único meio. A formidável tensão do intelecto que procura se opor à dor ilumina com isso tudo o que diz respeito a uma nova luz: e a indizível atração que sempre...

A leveza da melancolia

Tem dias nos quais a desesperança me serve melhor do que as projeções fantasiosas de um futuro perfeito. Às vezes prefiro aquela melancolia já cansada do que aquela empolgação com a vida que no fundo vem sempre acompanhada de perto pelo temor da morte. Talvez a sabedoria de vida resida em saber escolher com inteligência os nossos venenos. Acho que cada alma tem uma predileção por algum tipo de veneno. Não podemos generalizar. Para alguns o veneno é o amor, para outros o trabalho, alguns se matam com pequenas doses de missas e cultos, já outros preferem beber e fumar. Para os artistas o veneno é a própria vida e o antídoto a arte. Há aqueles que se embriagam do cotidiano, das manchetes de jornais, das discussões no Facebook, da conversa pequena com o guardador de carro, da importância dada à própria imagem, da inveja da conta bancária do vizinho, do sonho da vida não vivida, de alimentar fantasias que aplacam a dor de ter que encarar os próprios medos. No meu caso sinto que a esperança...

Berkeley

Prólogo  John Berkeley era um homem incomum. Desde pequeno carregava consigo a sensação de ser muito diferente da maioria das pessoas que o cercava. Com exceção de seus pais, que sempre incentivaram suas peculiares características, sentia que não pertencia a esse mundo. Aos 8 anos de idade, enquanto seus colegas estudavam frações e liam histórias infantis, ele estava mais interessado em cálculo diferencial, demonstrações de convergências de séries complexas, física Newtoniana e geometria não Euclidiana. Aos 10, muito antes da atual febre dos drones, Berkeley já havia construído seu próprio veículo aéreo não tripulado com peças de garagem, controlado por um aparelho de rádio-frequência que havia encontrado no porão da casa de seus pais. Enquanto seus colegas de escola soltavam pipa, John brincava com seu drone no quintal da casa de subúrbio, onde morava com seus pais. John Berkeley era filho de professores universitários aposentados. O pai havia ministrado aulas de filosofia ...