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Repúdio à esperança (ou uma ode à Vida)

O que é esperança? Seria a retórica interna que visa justificar o descontentamento com o momento presente com base na fuga para o campo das projeções de um futuro idealizado? Uma não aceitação da vida tal como ela é e que clama pela necessidade do sonho? O desejo da mente de estar num tempo diferente do tempo do corpo? O prêmio de consolação para aqueles que pelas amarguras do caminho não tiveram condições de gostar da vida por inteiro, mas apenas dos pedaços agradáveis da vida? Não sei bem o que é a esperança e nem julgo aqueles que veem na esperança a salvação do momento presente. Só sei que esse conceito me cansa e por isso repudio toda forma de esperança. E nesse meu  repúdio opto por acolher com carinho a melancolia contemplativa de um corpo já cansado pelas ilusões provocadas em nome dessa tal "esperança". Me lembro dos meus primeiros contatos com esse sentimento. Já na infância regava pacientemente a semente da esperança. Esperava um dia ser um grande homem, conhecer ...

O conhecimento daquele que sofre (trecho extraído do livro "Aurora" do Nietzsche)

A condição das pessoas doentes, durante muito tempo e horrivelmente torturadas pelo sofrimento, mas cuja inteligência, apesar disso, não se perturba, não deixa de ter valor para o conhecimento, sem falar até dos benefícios intelectuais que trazem consigo toda solidão profunda, toda libertação súbita e lícita dos deveres e dos hábitos. Aquele que sofre profundamente, encerrado de alguma forma em seu sofrimento, lança um olhar gélido para fora, sobre as coisas: todos esses pequenos encantamentos enganadores em que habitualmente se movem as coisas, quando são olhadas por alguém saudável, desaparecem para ele: ele próprio permanece envolto em si, sem encanto e sem cor. Supondo que viveu até aqui em qualquer perigoso devaneio, o supremo chamamento à realidade da dor constitui o meio de arrancá-lo desse devaneio: e talvez seja o único meio. A formidável tensão do intelecto que procura se opor à dor ilumina com isso tudo o que diz respeito a uma nova luz: e a indizível atração que sempre...

A leveza da melancolia

Tem dias nos quais a desesperança me serve melhor do que as projeções fantasiosas de um futuro perfeito. Às vezes prefiro aquela melancolia já cansada do que aquela empolgação com a vida que no fundo vem sempre acompanhada de perto pelo temor da morte. Talvez a sabedoria de vida resida em saber escolher com inteligência os nossos venenos. Acho que cada alma tem uma predileção por algum tipo de veneno. Não podemos generalizar. Para alguns o veneno é o amor, para outros o trabalho, alguns se matam com pequenas doses de missas e cultos, já outros preferem beber e fumar. Para os artistas o veneno é a própria vida e o antídoto a arte. Há aqueles que se embriagam do cotidiano, das manchetes de jornais, das discussões no Facebook, da conversa pequena com o guardador de carro, da importância dada à própria imagem, da inveja da conta bancária do vizinho, do sonho da vida não vivida, de alimentar fantasias que aplacam a dor de ter que encarar os próprios medos. No meu caso sinto que a esperança...

Berkeley

Prólogo  John Berkeley era um homem incomum. Desde pequeno carregava consigo a sensação de ser muito diferente da maioria das pessoas que o cercava. Com exceção de seus pais, que sempre incentivaram suas peculiares características, sentia que não pertencia a esse mundo. Aos 8 anos de idade, enquanto seus colegas estudavam frações e liam histórias infantis, ele estava mais interessado em cálculo diferencial, demonstrações de convergências de séries complexas, física Newtoniana e geometria não Euclidiana. Aos 10, muito antes da atual febre dos drones, Berkeley já havia construído seu próprio veículo aéreo não tripulado com peças de garagem, controlado por um aparelho de rádio-frequência que havia encontrado no porão da casa de seus pais. Enquanto seus colegas de escola soltavam pipa, John brincava com seu drone no quintal da casa de subúrbio, onde morava com seus pais. John Berkeley era filho de professores universitários aposentados. O pai havia ministrado aulas de filosofia ...

Fragmentos

Sua vida é um pequeno pedaço de nada Ainda assim, você vive no mundo do tudo... ...Um dia seu corpo morrerá... ...Ou talvez você já esteja morto... ...E sonha estar vivendo uma vida no tudo Enquanto dorme no mundo sem tempo do nada...

O crescimento econômico perpétuo... Isso é possível?

Desconfio muito desses jargões soltos de economistas que bostejam discursos prontos na Globonews e se escondem por trás de palavras como "taxas de juros", "metas de inflação", "expansão de crédito", "confiança dos investidores", etc.. Para mim qualquer estudo sério de economia deveria começar por uma visão antropológica do comportamento humano, em seguida migrar para a psicologia para só então falar em economia. Não consigo ver como o consumismo desenfreado estimulado por essa necessidade compulsiva de crescimento pode ser bom para a psicologia do Sapiens. Acho sempre saudável olhar para a nossa espécie pelo que ela é: um monte de macacos que usam roupas, se domesticaram na tentativa de suprimirem desconfortos naturais e que sofrem por isso. A sociedade humana moderna me parece uma cobra que devora o próprio rabo. Acredito também que Raul estava certíssimo quando dizia: "Tá rebocado meu compadre, como os donos do mundo piraram. Eles j...

Nós e Eles (uma resenha de um sonho)

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        Esse final de semana tive uma experiência transformadora. Pela segunda vez nesta breve vida tive a oportunidade de ver ao vivo um show de uma pessoa, que na minha opinião é o maior gênio vivo da história da arte: Roger Waters, meu membro favorito do Pink Floyd! Diferentemente de uma resenha técnica, minha intenção é de que este texto seja de cunho filosófico e sentimental. Gostaria que essas palavras pudessem ser vistas como um presente para meus irmãos humanos que não puderam experienciar a magia que foi aquele show.          Falar de Pink Floyd para mim é difícil. O primeiro texto que escrevi neste blog foi justamente uma resenha do "Dark Side of the Moon" ( link aqui ), disco que considero uma das mais belas obras de arte produzidas pela nossa espécie. Neste momento estou experienciando algo novo para mim: não estou conseguindo encontrar as palavras que considero mais adequadas aos meus afetos para descrever o show. Quem ...