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Vida

A vida é essa coisa que pulsa Esse movimento sem chegada Essa estrada sem partida Essa dança de vontades A vida é essa respiração Esse desabrochar do ser Essa floração do espírito Essa transmutação sem fim A vida é essa dinâmica Essa luta por espaço Essa batalha de pulsões Essa eterna ambivalência A vida é um nascimento Mas é também uma morte É o sofrimento que pede A percepção ou a sorte A vida é esse fractal Essa cascata hierárquica Da mitocôndria ao homem Do fragmento ao todo A vida é o caminho do tempo A força da finitude Que na busca da eternidade Manifesta a sua verdade

O ser e a música

Existe uma neblina que se interpõe entre observador e ser  E quando ela se adensa me atrapalha a visão  O primeiro sintoma é a desconexão  O tempo do mundo deixa de ser o tempo do ser  A transcendência passa a ser quase uma necessidade  O ser se sente sufocado pelo maquinismo do cotidiano  A rotina parece ser o combustível dessa neblina  Ela se alimenta de condicionamento e incompreensão  Mas acontece que o ser é forte  Ele também quer fazer valer sua vontade de potência  E de pouco em pouco vai se fazendo ouvir Sussurrando constantemente nos ouvidos desse observador  Tentando se iluminar para se fazer ver através da neblina  E nisso ela se espalha e se enfraquece  A neblina também se cansa, sua opacidade pesa E nessa dança de vontades o ser se revela  O primeiro sinal é uma leveza segura, uma certeza na presença  Uma harmonia fluida, resoluta, não diminuta, mas dominante...

Vida, vontade de potência, salvações metafísicas e criações...

Alguns pensamentos filosóficos que tem vagado pelos recôncavos da minha consciência e precisam se libertar na forma de texto... Sartre muito bem constatou o fato de que a nossa espécie nasce completamente vazia. Primeiro existimos, depois passamos a construir nossa essência. Essa é a ideia central do existencialismo, uma das mais importantes vertentes da filosofia contemporânea. Nascemos como uma folha em branco. Perdidos, confusos, assustados, cheios de incômodos e vontades que não entendemos, mas com um enorme potencial de absorção de conceitos e uma capacidade diferenciada (pelo menos no reino animal) de estabelecer relações de causa-consequência entre os fenômenos que captamos do mundo físico através dos nossos sentidos. Mesmo que esses sentidos, como Platão muito bem observou, sejam bastante imprecisos, limitados e fortemente sujeitos aos mais diversos tipos de engano. Talvez o dualismo Platônico tenha sido uma consequência psicológica da filosofia Grega de buscar uma salvaçã...

Por que é tão difícil ser coerente?

       Tenho pensado bastante sobre coerência. Acredito que exista uma questão fundamental da psicologia do homem em torno desse tema. Quando pensamos seriamente no conceito de vida nos deparamos com uma diversidade enorme de formas, tamanhos, funções biológicas, estruturas comuns, padrões de comportamento e níveis de consciência. Costumamos colocar a espécie humana no topo da nossa escala de complexidade nas questões da consciência e talvez essa seja mesmo uma escala apropriada.          O fato do homem ser provavelmente a espécie mais despreparada entre todas do reino animal no que tange às questões do instinto e ainda assim ter sido capaz de modificar o mundo da forma como modificamos é um ponto determinante nesse "ranqueamento"  da consciência dos tipos de vida que observamos em nosso planeta. Ainda assim sofremos coisas que só nós humanos sofremos. Criamos monstros psicológicos que só nós criamos. Coletivizamos nossas dores para ...

Instinto, razão e sentimentos

       Grande parte dos problemas emocionais do homem decorrem do eterno conflito "instinto x razão". Sabemos racionalmente que somos animais e que possuímos um lado selvagem, mas distraídos pelo cotidiano e inebriados pelo poder da razão acabamos nos comportando como se não  o fôssemos. Esse não reconhecimento de nosso lado selvagem, essa eterna luta contra a nossa própria natureza, segundo Nietzsche é responsável por uma "degeneração dos instintos". Nesse sentido, o homem é uma aberração da natureza. Não existe nada na natureza parecido com a gente. Aquele fator chave que nos diferencia de todos os outros animais é justamente a nossa racionalidade. Através dela  podemos identificar padrões nos eventos observados no espaço e no tempo. Essa identificação de padrões somada a um processamento inteligente nos possibilita modificar de forma intencional o nosso ambiente para que possamos atender melhor as nossas vontades naturais e suprimir de forma mais eficie...

Sobre a paixão

       A paixão tem sua gênese nos estímulos sensoriais resultantes de um primeiro encontro entre dois corpos. A sensação da reciprocidade de afetos entre corpos que possuem apreciação estética mútua provoca uma sensação psíquica de plenitude e bem estar. É o alívio para a alma provocado pela satisfação daquela pulsão instintiva do corpo. Esse primeiro encontro físico provoca uma cura momentânea para a alma, sempre cansada de ter que gastar a maior parte de suas energias nas resoluções que visam atender as infindáveis demandas do corpo. Nosso cérebro então teme pela não repetição dessa experiência. Mais do que isso, por encontrar-se em tal estado de entorpecimento, pensa apenas em estratégias para a repetição da experiência.         Mas somos mais sutis do que isso. Não somos apenas instinto e desejo reprimido. E então entramos na segunda fase da paixão: a paixão por uma ideia, por uma representação do potencial aliviador da dor vista na...

Sobre o ineditismo da vida

       Viver é estar em relação com o mundo. Essa afirmação é auto-evidente, pois a vida, como a conhecemos, é definida com base na experiência de seres viventes em constante relação com o mundo. Logo, podemos afirmar que viver consiste em se relacionar com o mundo. Esse "relacionar" não se limita às interações entre seres viventes, mas abrange todo conjunto de experiências sensoriais-cognitivas do ser que vive com esse "mundo". Tente fazer o experimento mental de retirar o mundo de sua frente. O que sobra? Um ser vivente flutuando em um escuro vácuo de ausência de interações com o mundo. Como esse ser saberia se está vivo ou morto se tudo que existe agora é uma imensidão de nada, de não-mundo? Ele poderia muito bem ser levado a concluir, usando a razão, que está simplesmente morto.        Já que não podemos retirar o mundo de nossa frente, somos obrigados a viver nele. Mas como somos seres humanos, péssimos em instinto e ex...