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Vida, vontade de potência, salvações metafísicas e criações...

Alguns pensamentos filosóficos que tem vagado pelos recôncavos da minha consciência e precisam se libertar na forma de texto... Sartre muito bem constatou o fato de que a nossa espécie nasce completamente vazia. Primeiro existimos, depois passamos a construir nossa essência. Essa é a ideia central do existencialismo, uma das mais importantes vertentes da filosofia contemporânea. Nascemos como uma folha em branco. Perdidos, confusos, assustados, cheios de incômodos e vontades que não entendemos, mas com um enorme potencial de absorção de conceitos e uma capacidade diferenciada (pelo menos no reino animal) de estabelecer relações de causa-consequência entre os fenômenos que captamos do mundo físico através dos nossos sentidos. Mesmo que esses sentidos, como Platão muito bem observou, sejam bastante imprecisos, limitados e fortemente sujeitos aos mais diversos tipos de engano. Talvez o dualismo Platônico tenha sido uma consequência psicológica da filosofia Grega de buscar uma salvaçã...

Por que é tão difícil ser coerente?

       Tenho pensado bastante sobre coerência. Acredito que exista uma questão fundamental da psicologia do homem em torno desse tema. Quando pensamos seriamente no conceito de vida nos deparamos com uma diversidade enorme de formas, tamanhos, funções biológicas, estruturas comuns, padrões de comportamento e níveis de consciência. Costumamos colocar a espécie humana no topo da nossa escala de complexidade nas questões da consciência e talvez essa seja mesmo uma escala apropriada.          O fato do homem ser provavelmente a espécie mais despreparada entre todas do reino animal no que tange às questões do instinto e ainda assim ter sido capaz de modificar o mundo da forma como modificamos é um ponto determinante nesse "ranqueamento"  da consciência dos tipos de vida que observamos em nosso planeta. Ainda assim sofremos coisas que só nós humanos sofremos. Criamos monstros psicológicos que só nós criamos. Coletivizamos nossas dores para ...

Instinto, razão e sentimentos

       Grande parte dos problemas emocionais do homem decorrem do eterno conflito "instinto x razão". Sabemos racionalmente que somos animais e que possuímos um lado selvagem, mas distraídos pelo cotidiano e inebriados pelo poder da razão acabamos nos comportando como se não  o fôssemos. Esse não reconhecimento de nosso lado selvagem, essa eterna luta contra a nossa própria natureza, segundo Nietzsche é responsável por uma "degeneração dos instintos". Nesse sentido, o homem é uma aberração da natureza. Não existe nada na natureza parecido com a gente. Aquele fator chave que nos diferencia de todos os outros animais é justamente a nossa racionalidade. Através dela  podemos identificar padrões nos eventos observados no espaço e no tempo. Essa identificação de padrões somada a um processamento inteligente nos possibilita modificar de forma intencional o nosso ambiente para que possamos atender melhor as nossas vontades naturais e suprimir de forma mais eficie...

Sobre a paixão

       A paixão tem sua gênese nos estímulos sensoriais resultantes de um primeiro encontro entre dois corpos. A sensação da reciprocidade de afetos entre corpos que possuem apreciação estética mútua provoca uma sensação psíquica de plenitude e bem estar. É o alívio para a alma provocado pela satisfação daquela pulsão instintiva do corpo. Esse primeiro encontro físico provoca uma cura momentânea para a alma, sempre cansada de ter que gastar a maior parte de suas energias nas resoluções que visam atender as infindáveis demandas do corpo. Nosso cérebro então teme pela não repetição dessa experiência. Mais do que isso, por encontrar-se em tal estado de entorpecimento, pensa apenas em estratégias para a repetição da experiência.         Mas somos mais sutis do que isso. Não somos apenas instinto e desejo reprimido. E então entramos na segunda fase da paixão: a paixão por uma ideia, por uma representação do potencial aliviador da dor vista na...

Sobre o ineditismo da vida

       Viver é estar em relação com o mundo. Essa afirmação é auto-evidente, pois a vida, como a conhecemos, é definida com base na experiência de seres viventes em constante relação com o mundo. Logo, podemos afirmar que viver consiste em se relacionar com o mundo. Esse "relacionar" não se limita às interações entre seres viventes, mas abrange todo conjunto de experiências sensoriais-cognitivas do ser que vive com esse "mundo". Tente fazer o experimento mental de retirar o mundo de sua frente. O que sobra? Um ser vivente flutuando em um escuro vácuo de ausência de interações com o mundo. Como esse ser saberia se está vivo ou morto se tudo que existe agora é uma imensidão de nada, de não-mundo? Ele poderia muito bem ser levado a concluir, usando a razão, que está simplesmente morto.        Já que não podemos retirar o mundo de nossa frente, somos obrigados a viver nele. Mas como somos seres humanos, péssimos em instinto e ex...

A leveza e o peso

Em mim existe leveza Mas também há peso Um peso que não tira férias Que ofusca o brilho da leveza Inebria a beleza do acaso Transforma tudo em plano E como tudo que é plano, pesa E como tudo que pesa cai E no cair distancia, desencontra Não se acha mais em sua causa E vira uma imagem borrada Num plano da não-consciência E na perda da nitidez vira medo E como tudo que é medo, pesa E com o peso do medo, cega E na cegueira, se perde Vira um monstro imaginado Que bagunça os afetos E agita os mares internos Deixando a leveza sozinha Tentando se mostrar à deriva Mas em mim também há leveza Que aflora quando o peso dorme E o barco quebrado da leveza Atraca na costa do mar de afetos E eleva o sentir ao inominado Estimulado pela transcendência Que me chega na forma de sons No arrepio causado Por um acorde diminuto Ou pela pausa no momento certo Que lembra a harmonia de que ela Também precisa descansar E que para ser leve Deve haver repouso E quando finda ...

Grão de pólen

Queria ser um grão de pólen E me mover ao sabor do vento Sem deliberações ou escolhas Queria ser mais acaso E marear como a maré mareia  Sem consciência, sem dor, sem medo Queria fluir como flui um rio Ser encontro não planejado E não desencontro programado Queria não precisar da linguagem Não ter que buscar nas palavras Essa transcendência desesperada Queria prescindir da poesia E não ter que fazer esforço Para fugir da prisão dos sentidos Ser mais instinto e menos razão  Estar presente no agora Existir sem precisar ser  Rafael Gabler, 18/10/2017